Não mande seu filho calar a boca. Ensine-o a argumentar!
- Cintia Neves de Azambuja
- 2 de set. de 2024
- 3 min de leitura

Sabe aquele momento em que você diz “não” e seu filho continua insistindo “mas, mãe, deixa”? Era a hora em que eu dizia: “Então, argumente e me convença que eu devo deixar você ir. Porque 'mãe, deixa' não é argumento”. A única saída para a minha filha Laura era argumentar.
Eu comecei a fazer isso quando ela tinha uns 8 anos. Se não fosse assim, teria que aceitar o veredito e obedecer. E ela começou a argumentar. Desenvolver a capacidade de argumentação em crianças é uma tarefa importante para estimular o pensamento crítico e a comunicação eficaz. O mercado profissional está carente de pessoal com essas habilidades e só isso já é um diferencial. Então, listei aqui estão algumas estratégias que eu utilizei:
Diálogo Aberto: Eu incentivei conversas em família sobre assuntos do noticiário. Tínhamos um momento do dia para conversar sobre temas diversos, alguns trazidos por Laura, do universo dela. Assim, eu aprendia muito com ela também. Ouvia atentamente seus pontos de vista e fazia perguntas que a estimulavam a explicar suas opiniões. Você também tem que dar respostas completas. “Porque sim” não é resposta, ok?
Debates e Entrevistas: Ouvíamos debates, entrevistas ou discursos políticos e analisávamos quais os interesses daquele discurso, o que era mentira e nos aprofundávamos em tópicos relevantes. Isso ajuda a estruturar argumentos e considerar diferentes pontos de vista. Acredite, é enriquecedor. E você ainda pode conhecer melhor seu filho. Era uma forma de introduzir assuntos sobre a sociedade.
Identificar Fake News: Explique a diferença entre opiniões e fatos, e como usar evidências para sustentar uma posição. Mostre como construir argumentos sólidos. Ensine que sempre tem que ir na fonte primária ao invés de considerar a primeira notícia viralizada como verdade. Uma notícia que se espalha rápido tem 90% de chance de ser falaciosa.
Discussão Ética: Aborde dilemas éticos e morais com as crianças. Peça que justifiquem suas escolhas e considerem consequências. Isso é bom para formar o caráter de nossos filhos.
Leitura e Escrita: Livros e redações ampliam o vocabulário e a capacidade de expressão. Estimular a leitura é fundamental. Felizmente, Laura gostava de ler.
Jogos de Lógica: Não conheço nada tão bom e divertido para aprender raciocínio lógico e argumentação quanto os jogos. Adote esses momentos para vocês, porque são ricos e nos deixam atentos e bons estrategistas.
Atividades em Grupo: Trabalhar em equipe desenvolve habilidades de comunicação e argumentação. Projetos colaborativos são ótimas oportunidades. Muitas vezes nossos cenários foram a cozinha, onde preparávamos algo juntas e conversávamos.
Respeito às Opiniões Divergentes: Ensine que é possível discordar sem desrespeitar. Ouvir e considerar diferentes perspectivas é essencial. Saber fazer isso é sair na frente da geração deles.
Exemplo Prático: Quando tomar decisões em família, envolva as crianças na discussão. Pergunte por que preferem uma opção e incentive-as a justificar. Nada melhor do que elas se sentirem participativas e importantes nas decisões.
Se eles discordarem de você em algum assunto, não brigue. Afinal, estamos falando de argumentação, certo? Use seus argumentos. E tem que ficar claro que nem sempre eles vão ganhar com os argumentos deles. Eu já tive que dizer: “ Seus argumentos não foram suficientes e, como sou eu quem decide, você não vai fazer o que pediu. Talvez em outro momento e situação. Mas não me sinto confortável em deixá-la diante da situação e estou fazendo isso pela sua segurança”.
Mesmo com a carinha um pouco emburrada, ela aceita melhor do que se fosse só um “não” seco! Em outros momentos, ela melhorou o argumento e eu disse: “Agora, sim, você me convenceu! Você pode sim!” E nascia, assim, uma menina preparada para o futuro. O chaveiro aí da foto foi um presente do pai e virou um símbolo, um marco da capacidade da Laura de argumentar. "Trained from birth to argue" (Treinada desde o nascimento para argumentar). E foi nele que colocamos uma cópia da chave de casa para ela, alguns anos depois. Um símbolo de confiança de que ela estava preparada para uma nova etapa da vida.
Comments